O envelhecimento é um processo contínuo, universal e multifatorial, que envolve transformações biológicas, psicológicas e sociais. É uma fase natural e valiosa da vida. É inegável que hoje a expectativa de vida aumentou consideravelmente.
O Envelhecimento e Seus Desafios
O Cenário Atual no Brasil
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são 31,2 milhões de idosos, mais de 14% da população. Eles são o grupo mais afetado pela depressão. Nessa fase, muitos idosos enfrentam desafios como a aposentadoria, a perda de entes queridos, o afastamento de atividades rotineiras e até limitações de saúde.
Segundo Gabbard (2016), cada pessoa é única, os sintomas são vistos como parte da trajetória subjetiva de cada um.
As Múltiplas Dimensões do Envelhecimento
Do ponto de vista biológico, o envelhecimento relaciona-se a alterações progressivas no funcionamento do organismo. No campo cognitivo, apesar de possíveis diminuições na velocidade de processamento e na memória de curto prazo, muitas outras capacidades permanecem preservadas ou até se ampliam.
No âmbito social, o envelhecimento frequentemente traz mudanças significativas, há redução da rede de apoio, aumento da sensação de isolamento e, em muitos casos, alterações na estrutura familiar, com filhos que mudam de cidade e rotinas sociais menos intensas, já na dimensão emocional, os idosos vivenciam desafios que podem impactar significativamente sua saúde mental. Ou seja, o idoso terá mudanças em todas as áreas de sua vida.
“Embora os estereótipos sugiram que o envelhecimento leva a um declínio inevitável da memória, pesquisas mostram uma considerável variabilidade no funcionamento cognitivo entre os indivíduos à medida que envelhecem. A neuroplasticidade permite que o cérebro se adapte e crie novas conexões neurais, desmistificando a ideia de que o declínio cognitivo é uma verdade universal para os idosos”. (LEVY, 2022).
Durante muito tempo, acreditou-se que os idosos não precisavam de acompanhamento psicológico, como se a tristeza, o isolamento ou a falta de motivação fossem apenas “coisas da idade”.
Segundo Anna Freud (1974), é tarefa do analista trazer à consciência o que está inconsciente, seja qual for a instância psíquica a que o material pertença. Ou seja, a terapia é uma oportunidade para o idoso compreender sua história e ressignificar suas memórias, emoções, sentimentos e lembranças.
Portanto, o envelhecimento não deve ser visto apenas como uma etapa da vida marcada por perdas, mas como um período repleto de possibilidades. Com suporte emocional adequado, é possível viver essa fase com dignidade e autonomia.
Doenças Emocionais na Terceira Idade
As doenças emocionais têm um impacto profundo na vida dos idosos, afetando não apenas a saúde mental, mas também o bem-estar físico, social e cognitivo. Por isso, devemos nos manter atentos.
Depressão: A Dor Silenciosa
A depressão, por exemplo, é uma das doenças emocionais mais comuns na velhice e muitas vezes passa despercebida, pois seus sintomas podem ser confundidos com sinais naturais do envelhecimento.
Em idosos, a depressão pode se manifestar por meio de irritabilidade, apatia, perda de interesse por atividades antes prazerosas, dificuldades de concentração, alterações no sono e no apetite. Além disso, idosos deprimidos podem apresentar mais queixas físicas, como dores e fadiga, o que dificulta o diagnóstico.
Quando não tratada, a depressão aumenta o risco de isolamento social, piora de doenças crônicas e redução significativa da qualidade de vida.
“A melancolia se caracteriza, em termos psíquicos, por um abatimento doloroso, uma cessação do interesse pelo mundo exterior, perda da capacidade de amar, inibição de toda atividade e diminuição da autoestima, que se expressa em recriminações e ofensas à própria pessoa e pode chegar a uma delirante expectativa de punição”. (Freud, 1915, p. 128).
Ansiedade: O Medo do Futuro
A ansiedade também é frequente nessa fase e pode surgir diante de medos específicos, como o receio de queda, perda de autonomia, doenças e morte. Os sintomas ansiosos podem incluir preocupação excessiva, inquietação, tensão muscular, palpitações e dificuldade de relaxar.
Em idosos, a ansiedade pode interferir na realização de atividades simples, como sair de casa, socializar ou lidar com situações novas. Esse quadro pode levar à retração social, aumentando o risco de dependência emocional e até cognitiva.
Segundo Freud (1926) a psique é dominada pelo afeto da ansiedade se sentir que é incapaz de lidar por meio de uma reação apropriada com uma tarefa (um perigo) que se aproxima de fora.
O Luto Complicado
O luto é outra experiência emocional profundamente significativa na vida do idoso. A perda de amigos, familiares e do cônjuge é comum nessa etapa, e cada perda pode desencadear um processo doloroso e, em alguns casos, prolongado.
Quando o luto se manifesta de forma complicada com sofrimento intenso por longos períodos, perda de interesses e incapacidade de retomar a vida, ele pode se transformar em um transtorno emocional que impacta todas as dimensões da existência do idoso. “No luto, é o mundo que fica pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego”. (FREUD, 1915, p. 251).
O Impacto Cognitivo e Social
No campo cognitivo, os transtornos emocionais podem diminuir a atenção, a memória e a capacidade de tomada de decisões. Em alguns casos, sintomas emocionais intensos podem ser confundidos com demência, levando à chamada “pseudodemência depressiva”, na qual o idoso apresenta dificuldades cognitivas devido à depressão e não a um quadro neurodegenerativo.
Quando tratada adequadamente, essas funções costumam melhorar significativamente. Já do ponto de vista social, as doenças emocionais favorecem o isolamento, a perda de vínculos e a redução das atividades de convivência. Muitos idosos evitam sair, deixam de participar de grupos ou se afastam da família por medo, cansaço ou desmotivação.
O isolamento, por sua vez, alimenta ainda mais os sintomas emocionais, criando um ciclo difícil de romper. “Imagine enfrentar seus anos posteriores com uma mentalidade que celebra o crescimento e o aprendizado, em vez de temer o declínio”. (LEVY. 2022).
A Relação com a Saúde Física
As doenças emocionais também influenciam a saúde física de maneira marcante. Estados depressivos e ansiosos podem agravar condições crônicas como diabetes, hipertensão, doenças cardíacas e problemas respiratórios.
O estresse emocional prolongado aumenta a liberação de hormônios como o cortisol, que enfraquece o sistema imunológico e reduz a capacidade de recuperação do organismo.
Com isso, o idoso se torna mais suscetível a infecções, dores persistentes e complicações de doenças já existentes. “Devemos enfatizar que os processos de envelhecimento social, biológico e psicológico não ocorrem independentemente um do outro. Como vimos, as mudanças no estado físico do corpo (e especialmente do cérebro) podem ter profundos efeitos sobre o funcionamento psicológico”. (HAMILTON, 2002, p.37).
O idoso guarda em si um universo de histórias, memórias, sentimentos e emoções que se acumulam ao longo de uma vida inteira. Cada lembrança, cada experiência vivida, transforma-se em páginas invisíveis que revelam sabedoria, conquistas, desafios e aprendizados.
Mas, também dor, tristeza, arrependimento e traumas. Assim, o idoso é como um livro raro: valioso, único e repleto de narrativas que merecem ser ouvidas e preservadas, pois carregam a essência do tempo e a riqueza de tudo o que foi vivido.
“Na vida psíquica nada que uma vez se formou pode acabar, de que tudo é preservado de alguma maneira e pode ser trazido novamente à luz em circunstâncias adequadas” (FREUD, 1929).
A Importância da Terapia Para os Idosos
A terapia é um processo de autoconhecimento e cuidado emocional conduzido por um psicanalista ou psicólogo. Durante as sessões, o paciente tem um espaço seguro e confidencial para falar sobre seus sentimentos, pensamentos, dificuldades e conflitos.
A função do terapeuta não é dar respostas prontas, mas fazer o paciente refletir sobre o que falou para entender melhor a si mesmo. Freud (1937), em vez de indagar como se dá uma cura pela análise (assunto que acho ter sido suficientemente elucidado), se deveria perguntar quais são os obstáculos que se colocam no caminho de tal cura. Por vezes a resistência do próprio paciente.
A terapia é um lugar de acolhimento onde o idoso pode expressar sentimentos, trabalhar memórias e redescobrir sentido em sua rotina. Fazer terapia é um ato de coragem e autocuidado.
O Poder do Lúdico na Psicoterapia
O lúdico pode ser usado para trabalhar sentimentos, memórias, emoções e traumas. O lúdico vai muito além do simples ato de brincar. Ele envolve atividades que despertam o prazer, a criatividade e o envolvimento emocional como: jogos, música, artes, colagem, contação de histórias e diários das emoções etc.
Essas práticas, quando inseridas no contexto terapêutico com intencionalidade, ajudam o idoso a acessar memórias, expressar sentimentos, desenvolver novas habilidades e até ressignificar experiências difíceis.
Segundo Winnicott (1971/1975), sugiro que devemos encontrar o brincar tão em evidência na análise de adultos quanto o é no caso de nosso trabalho com crianças.
O lúdico não é apenas entretenimento: é uma estratégia terapêutica poderosa, que contribui para o envelhecimento ativo, saudável e digno, reforçando habilidades físicas, cognitivas, emocionais e sociais.
Segundo Laplance e Pontalis (2001), Freud descreve essas atividades como um processo de sublimação, onde impulsos são redirecionados através de atividades artísticas.
Na terceira idade, o lúdico tem ainda uma função especial, ele rompe com a rigidez que muitas vezes se associa ao envelhecimento. Por meio do riso, da leveza e da interação social, o idoso se reconecta com partes de si que estavam adormecidas, fortalecendo sua autoestima e senso de pertencimento. Segundo Winnicott (1971), é no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou o adulto fruem da sua liberdade de criação.
Além disso, atividades lúdicas auxiliam no combate à depressão, ansiedade e declínio cognitivo, condições comuns nessa fase da vida. Quando o idoso se sente acolhido e estimulado em um ambiente terapêutico que valoriza sua história e sua capacidade de se expressar, os efeitos positivos são visíveis no humor, na memória, na linguagem e nas relações interpessoais.
Portanto, integrar o lúdico na terapia com idosos não é apenas uma escolha criativa, é uma estratégia clínica eficaz, que respeita as singularidades dessa etapa da vida e promove um envelhecer mais ativo, humano e significativo. Winnicott (1971), a psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas. E esse é nosso objetivo com a terapia para idosos, cuidar e promover vida, vínculo e sentido.
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Bibliografia
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FREUD, S. Conferências introdutórias sobre psicanálise. Rio de Janeiro. Imago. 2006.
FREUD, S. A história do movimento psicanalítica, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. Rio de Janeiro. Imago. 2006.
FREUD, S. Um estudo autobiográfico, inibições, sintomas e ansiedade, análise leiga e outros trabalhos. Rio de Janeiro. Imago. 2006.
FREUD, A. O ego e os mecanismos de defesa. Porto Alegre. Artmed. 2006.
FREUD, S. O mal estar da civilização. Companhia das letras. São Paulo. 2010.
GABBARD, G. O. Psiquiatria psicodinâmica na prática clínica. 5ª edição. Rio Grande do Sul. Artmed. 2016.
HAMILTON, I. S. A psicologia do envelhecimento: uma tradução. 3ª edição. São Paulo. Artmed, 2002.
LEVY, B. A coragem de envelhecer: a ciência de viver melhor. 1ªedição. Rio de Janeiro. Principium. 2022.
WINNICOTT, D. W. O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
WINNICOTT, D. W. Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: WMF Martins Fontes. 2022.
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos






